Quem foi ao ar...
Martha Medeiros
Informações são renovadas de forma muito veloz, ficamos todos obsoletos do dia pra noite.
Em uma de suas crônicas publicadas nesta página, enquanto eu estava de férias, Cláudia Laitano mencionou a falta de delicadeza do mundo, de como estão todos rudes, o que é uma verdade indiscutível. Então, antes de mais nada, aproveito pra fazer minha parte, exercendo a educação que me foi dada: obrigada, Cláudia, por me substituir com a competência e elegância de sempre.
Dá um friozinho na barriga cada vez eu a gente é substituído, mesmo que por um breve período. Ninguém quer saber de passar o bastão, fica sempre a impressão de que quem vem atrás vai fazer melhor – e faz mesmo. Informações são renovadas de forma muito veloz, ficamos todos obsoletos do dia pra noite. Há que se aprender a lidar com isso nestes tempos em que nada mais é permanente.
O mesmo vale para engenheiros, médicos, dentistas: se pararem de estudar, hasta la vista. Não importa o status que alcançaram, o fato é que não dá pra contar apenas com o conhecimento que adquiriram nas salas de aula e com a experiência até aqui, é preciso atualizar-se esquizofrenicamente. Antes essa cobrança era prerrogativa apenas de atletas, que não podiam (e seguem não podendo) deixar de treinar, sob pena de enferrujamento. Agora ninguém mais escapa: somos seres lamentavelmente substituíveis, em todas as ocasiões, lugares, circunstâncias – e corações.
O que não impede o culto aos gênios. Oscar Niemeyer, Pelé, Fernanda Montenegro, só para citar três, são talentos únicos – porem substituíveis em seus papéis de namorados, síndicos, confidentes, parceiros de caminhada. E, mesmo no que se refere a seus dotes artísticos, surgem e surgirão outros igualmente brilhantes – não idênticos, mas brilhando de um jeito novo e preenchendo as carências deixadas.
Pra que mesmo tocar neste tema ligeiramente perturbador na primeira crônica depois das férias? Ah, lembrei. Porque em todos os verões sou substituída no jornal e isso me remete aos tempos de criança, quando bastava a gente levantar para ir ao banheiro que outro vinha e decretava: “Quem foi ao ar perdeu o lugar”. Nossas primeiras lições sobre competitividade.
E também porque no verão eu substituo a mim mesma. Deixo pra trás minha versão estressadinha e assume no lugar uma mulher que dorme melhor, não usa relógio, desliga o celular, fica mais bronzeada, mais naturalista, mais refratária aos dramas do mundo, com mais tempo para os amigos e para a família, e desconfio que esta é superior à outra. Mas ainda não foi desta vez que ela me tomou o lugar: a estressadinha reassumiu o posto, que a vida não está pra brincadeira e férias a vida inteira, nem pensar.
Domingo, 29 de fevereiro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.